SERÁ QUE A CRIANÇA PODE COMUNICAR SEM TER LINGUAGEM E FALA?

Comunicação, linguagem e fala são conceitos independentes mas que se ligam e relacionam entre si. Fazem parte de uma “árvore”, cuja raiz é a comunicação, a primeira a ser adquirida. À medida que se desenvolve, emerge um forte tronco, no qual se integra a linguagem, cuja aprendizagem ocorre gradualmente ao longo dos anos. Esse tronco ramifica-se, surgindo vários ramos com diferentes tamanhos: num ramo maior, surge a fala e nos restantes, outras formas de expressão como a Língua Gestual, os Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação, a escrita, entre tantas outras. Por esta razão, a comunicação pode e deve surgir mesmo sem que exista ainda a linguagem e a fala.

Atendamos a um exemplo prático:

  • um bebé recém nascido comunica que tem fome, que quer colo ou tem sono, através de comportamento de desconforto inicialmente “automáticos” e centrados no processamento sensório-emocional, como o choro. Numa primeira fase, não é intencional, sendo os pais os responsáveis por atribuir um significado a esse comportamento e responderem ao bebé com alguma ação. Mesmo sem intenção, o bebé comunica e transmite uma mensagem. Com o desenvolvimento e a repetição sistemática e coerente, o bebé compreende e faz as associações: choro – comida, choro – colo, mudando o choro em resposta à ação do adulto cuidador. Bem cedo, por volta dos 3 meses, pode afirmar-se intencionalidade no choro do bebé para comunicar com os cuidadores.

Assim, com o desenvolvimento, a criança torna-se mais competente e ativa, desenvolvendo intenção nas suas ações, utilizando outras formas de comunicação como o olhar, a expressão facial, o gesto, a postura corporal, a mímica, o sorriso, o riso e o grito.


Esta constante de ação-consequência forma ciclos de padrões que, tipicamente, criam significado, se associam e transformam em conceitos, sendo estes a base para o desenvolvimento da linguagem. A criança irá compreender primeiro a linguagem do outro e só depois começar a expressar-se através de sons, sílabas, palavras e frases. No entanto, para que a linguagem emergente se desenvolva da melhor forma, a criança precisa de ter interesse e vontade de comunicar, ou seja, uma raiz forte. Desta raiz, a comunicação, fazem também parte competências como: manter/modelar o contacto ocular com o interlocutor; tomar turnos na interação (sou eu – és tu); alternar o foco de atenção entre o interlocutor e o objeto (atenção conjunta); e usar diferentes funções comunicativas.

A fala, definida como ato motor para a transmissão de linguagem, é a forma mais evidente das utilizadas na comunicação. Implica a respiração e o controlo das estruturas da boca, nariz e bochechas. No entanto, antes, já a criança comunica através de outros meios, por exemplo, a criança pequena começa por responder aos pais através do choro, grito, riso, gestos e só mais tarde, então, começa a usar a fala.

Algumas crianças têm problemas de comunicação, como por exemplo, as crianças com Perturbação do Espectro do Autismo. Outras têm problemas de linguagem, como por exemplo as Perturbações de Linguagem Primárias; e outras têm apenas problemas de fala, como por exemplo as Perturbações Articulatórias.

Os pais são os melhores conhecedores dos comportamentos comunicativos e linguísticos dos seus filhos, fornecendo modelos e estimulando-os. Naturalmente, vão monitorizado a evolução destes domínios, pelo que frequentemente conseguem apreender sinais que podem causar-lhes dúvidas relativamente ao desenvolvimento comunicativo, linguístico e da fala. Assim, em caso de dúvida relativamente a esse desenvolvimento, fale com o seu Pediatra e procure um Terapeuta da Fala. Estes profissionais poderão ajudá-lo a compreender em que fase o seu filho está e a encontrar diferentes estratégias promotoras do seu desenvolvimento.

Drª Vanessa Leitão Silva
Terapeuta da Fala
Coordenadora do Departamento de Terapia da Fala

Referências bibliográficas: Owens, R.E. (2012). Language Development – An Introduction. New York: Pearson. Peixoto, V.; Rocha, J. (2009). Metodologias de Intervenção em Terapia da Fala. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa. Rombert, J. (2013). O gato comeu-te a língua?. Lisboa: A esfera dos livros.

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